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R E S I S T A - SUPREMACIA BRANCA, ESTADO E CAPITAL: Tripé de sustentação da opressão social latino-americana


SUPREMACIA BRANCA, ESTADO E CAPITAL: Tripé de sustentação da opressão social latino-americana 

Vivemos em nosso país e em nosso continente, um momento extremamente brutal e violentamente injusto. A miséria se alarga inundando enormes contingentes de nossas populações, enquanto o desenvolvimento e o progresso “globalizado” e neoliberal seguem beneficiando apenas as mesmas elites que conhecemos e aprendemos há 500 anos – e diariamente – a odiar. A cada instante que passa, fica mais clara para todos, a impossibilidade do atual ordenamento social em garantir condições dignas de existência para a imensa maioria da população brasileira e latino-americana. Diante desta realidade, cabe a nós anarquistas, fazer frente aos desafios que nosso tempo nos impõe.

Cabe a nós, realizar a urgentíssima tarefa de devolver o anarquismo – enquanto ferramenta de libertação e não enquanto dogma filosófico ou comportamental – ao nosso povo em luta. Sim, a luta está ocorrendo, está diante de todo que a vivencia ou é sensível o bastante para enxergá-la, chega mesmo a ser palpável no cotidiano do nosso povo, nas filas de atendimento dos hospitais públicos de todo país, na astúcia e perseverança dos milhões de trabalhadores informais, nas ocupações coletivas e espontâneas de terra, guiadas pela necessidade, e até mesmo, e infelizmente, na curta vida do crime na qual muitos dos nossos se atiram por desespero e/ou ilusão; curta vida que quase sempre termina debaixo de uma saco preto ou detrás das grades da masmorra do inimigo opressor.

O grosso do nosso povo luta, mas luta da forma que sabe, da forma que conhece, luta desorganizado e individualmente, luta muitas vezes contra seu irmão e contra si mesmo sem saber, luta pelo inimigo. O anarquismo historicamente sempre serviu aos povos mais oprimidos como principio e método de luta e organização, e sempre foi eficaz onde se fazia entender pelo povo, onde pertencia ao povo e a mais ninguém, onde tinha sua cor e sua cara, onde sentia sua dor e seu sofrimento, aí o anarquismo brotou, floresceu e deu frutos, mesmo tendo sido brutalmente decepado, incinerado, dizimado, ainda faz sentir o seu aroma, e faz suas sementes renascerem. 


O nosso povo é predominantemente negro e mestiço, tem profundas raízes fincadas no continente africano. Somos o segundo país do mundo com maior população negra. Nossa cultura, nossa língua, nossa alma e nossa gente – principalmente a mais oprimida - estão repletas de África. A sociedade e o estado brasileiro produzem e reproduzem um racismo imundo e poderosíssimo, sofisticado, dissimulado e covarde. O racismo brasileiro é o racismo do totalitarismo branco, da ideologia do branqueamento, onde o negro luta desesperadamente para se livrar da sua cultura, de sua aparência, de sua identidade, de sua alma enfim, luta para se tornar menos negro e se aproximar dos direitos, da dignidade e do respeito, ou seja, luta para se aproximar da brancura dos poderosos. Pelo menos metade do nosso povo é afro-brasileiro e negro, 70% dos indigentes do país – indigentes que constituem um terço de nossa população – são igualmente negros. O presidente da republica, os senadores, os juízes, os alto oficiais das forças armadas e as estrelas da TV, no entanto, são brancos, são euro-brasileiros, europeus em ascendência, cultura e valores, se parecem bastante com o anarquismo que conhecemos e produzimos no Brasil, também europeu e ascendência, cultura e valores.

Nosso continente latino americano é o fruto de seguidos estupros, linchamentos e extermínios realizados pelo colonizador branco europeu contra os povos indígenas nativos e negros sequestrados e aqui escravizados. A diferente mistura e proporção destes ingredientes faz a diferença entre nossos países. A luta e a resistência habitam estas terras desde a chegada do colonizador. Luta espontânea e luta organizada e revolucionária. Tivemos grandes vitórias assim como grandes derrotas. São 500 anos de feroz opressão e brava resistência. O anarquismo, enquanto ideologia, chegou em nossas terras, porém, há bem menos tempo, veio da mesma terra do colonizador, mas através do povo oprimido de lá, tínhamos e temos os mesmos inimigos. O anarquismo nasceu na Europa e lá floresceu, como é principio e método e não dogma – diferente do marxismo – pode se converter e se pintar da cor que quiser, pode reassumir as praticas libertárias ancestrais da luta afro-indígena, deve se pintar da cor do nosso povo, sentir a nossa dor, olhar por nossos olhos, falar por nossa boca, com nossas palavras. Deve fazer isto urgentemente, temos de fazer isto imediatamente.

Um sintoma muito claro do eurocentrismo do nosso anarquismo brasileiro e latino americano está na forma em como insistimos em analisar nossa realidade. Interpretamos a nossa sociedade basicamente com mesmos critérios que herdamos dos companheiros do século XlX europeu. Malatesta foi um branco italiano em um Itália branca, Bakunin foi um russo branco em uma Rússia branca, como podemos transportar diretamente uma analise realizada por estes homens em seus respectivos contextos sociais para nosso país multirracial e racista e para nosso povo negro, indígena e mestiço? O anarquismo brasileiro historicamente sempre ignorou e permanece ignorando – juntamente com a esquerda marxista – a Supremacia Branca enquanto pilar de sustentação do poder das elites oligárquicas euro-brasileiras.

A supremacia branca latina, estadunidense e sul-africana, são irmãs, diferem nos métodos e não na essência, aqui não se segrega legalmente o povo negro, hierarquiza-se a sociedade e coloca-o no ultimo lugar, que nem tente sair de lá, aqui o negro não rejeitado, permanece escravizado, humilhado, marginalizado. Permanecemos tragicamente, fazendo coro com o discurso da “Democracia racial” ao afirmarmos coisas como: “o problema do Brasil é social e não racial”. Que sentido possui esta afirmação ao constatarmos que somos um povo majoritariamente negro, indígena e mestiço oprimido por uma elite dominante branca? O economicismo, muito presente na analise social da maioria dos anarquistas brasileiros revela muito pouca sensibilidade aos anseios e sofrimentos da porção mais oprimida de nosso povo.

Enorme contribuição tem prestado o Movimento Zapatista mexicano ao anarquismo latino-americano em geral. Ressaltando o aspecto especificamente racial enquanto fundamento de seu projeto político, os zapatistas auxiliam enormemente na derrubada de toda uma estrutura de pensamento centrada nas relações de produção material. Apesar da radicalidade da nossa critica ao marxismo, construímos nossas analise e nossa política de intervenção social, durante todo o tempo, sobre as categorias e conceitos marxistas, juntamente com seu descarado eurocentrismo. Devemos estar a altura da tarefa de pintar o anarquismo no Brasil da cor de nosso povo, no meio dele. Devemos resgatar a memória e o ensinamento da luta afro-popular que se desenvolve há 500 anos em nosso país. O anarquismo precisa se tornar sensível, compreensível e atraente para a massa popular mais oprimida de nossas terras: o povo negro.

A Supremacia Branca, que juntamente com o Estado e o Capital perpetuam as mesmas elites no poder desde a invasão colonial, deve ser combatida frontalmente. A escravidão, a manutenção do latifúndio, o impedimento aos negros de ingressarem no mercado de “trabalho livre” (por questões especificamente racistas) na transição entre os séculos XlX e XX, e o preconceito racial que histórica e diariamente prejudica a população afro-brasileira no mercado, na educação, na construção da auto-estima e na conquista dos mais básicos direitos, atiraram e mantém os negros e negras brasileiras nas camadas mais baixas e mais numerosas da pirâmide social em nosso país. Devemos construir um anarquismo militante, combatente e profundamente afro-popular.

Todo Poder ao Povo!
Morte a Supremacia Branca!

LEL – Laboratório de Estudos Libertários [Rio de Janeiro, 2001]

Texto publicado originalmente no informativo Libera, ano 11, n° 108, set-out de 2001. [http://goo.gl/xTQ2T0]


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